sexta-feira, 19 de junho de 2009

Punhais

Ele estava diferente - pensativo, calado, olhar perdido. Lábios secos, sabor amargo na língua. O oposto de minutos antes. Entrou pela porta da sala e foi direto à cozinha. Não deixara suas coisas no gabinete como de costume. Pegou uma cerveja na geladeira. Caiu sobre o sofá largando sua pasta no meio da sala. As imagens da TV atravessavam seus olhos, mas suas retinas não eram sensibilizadas. Muito menos seus tímpanos. Todos seus sentidos ainda traziam consigo as impressões daquele último encontro. Sua cabeça fervia. Seus lábios tremiam. Arrastou-se até o banheiro. Esperava que o fluido gelado que percorria seu corpo carregasse consigo todos os serás, os porquês, os talvez e principalmente os “se tivesse sido diferente”. Esperou ainda algum tempo em frente ao espelho. A cabeça ainda fervia. Deitou-se sorrateiramente na ponta da cama. Inútil, sua companheira percebera:

-Chegaste agora?
-hum.
-Calado, o que tens?
-Nada, sono.

Ela aprendera com os anos, mesmo sem olhar, a distinguir quando ele serrava os olhos para dormir ou se mirava o negrume.

-O que tens?
-Me deixa dormir.
-Fala, faz bem.
-Não é nada, deita e dorme.

Assim, ele prendera em sua garganta mais um punhal que, num dado dia, junto com tantos outros, dilaceraria o peito dela, rasgando sua alma com todas as verdades guardadas, com o peso de todas as coisas não ditas...

Um comentário:

  1. E como guardamos verdades que acabam apodrecendo dentro de nós...

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